“Você precisa de um livro que fique em pé”
João José
Linhas gerais
Um delírio. É o que propõe, antes de começar, o professor de literatura portuguesa Antonio Tabucchi, em seu livro “Os três últimos dias de Fernando Pessoa” (Rio de Janeiro: Rocco, 1996). Um delírio de vazios, de nadas tão significativos. Assim é ler a obra de Antonio Tabucchi, que não poderia fugir desse clima de “está-faltando-algo-que-é-preciso-preencher” do que Fernando Pessoa – e todos os colaboradores dentro de si - deixou. E quanto maior o vazio – que em nada se assemelha à falta – maior é a busca. Bom mesmo é o vazio, ciclo interminável de entre safras; pois se refaz, até a próxima fase de colheita, frutos maduros e abundantes.
Digamos que, como Tabucchi, eu também tenha vivido tempos de delírio. Em meu sonho de aluna, “sei que despertei e que ainda durmo”, sem saber distinguir, por vezes, quando é sonho e quando é realidade (intensa e eterna metáfora da vida), fui visitada pelas pessoas de Fernando durante os últimos meses – sob a mediação do professor.
A diferença – sutil – é que, no meu sonho, Pessoa e seus heterônimos estavam bem vivos. Deixaram em sua estada lições de realidade, golpes de vida. Sopro esperançoso. Álvaro de Campos, por exemplo, me ensinou que é preciso uma pequena inspiração para fazer da prosa uma poesia. Um “ao” muda tudo. “Vou jogar uma bomba ao destino”. Voilà: temos uma obra de arte. Já Ricardo teria, possivelmente, dito: “se eu guardasse a indiferença, nada nos afetaria de fato. Sou o poeta da indiferença. Já me foi dada a dádiva de viver. Meramente cumpro meu destino. ‘Ninguém te dá quem és’. Cumpra o seu dever de ser”.
A obra
“Os três últimos dias de Fernando Pessoa”, com este título, não tinha muitas possibilidades mesmo de fugir do tema do fim do novelo, tecido pela morte. Fernando Pessoa está no limiar e recebe, no hospital, seus heterônimos para um último diálogo. “Sempre há tempo”, vaticina o poeta. “Minha vida foi mais forte do que eu e do que o meu amor”, finaliza. No caminho para o hospital, relembra dos temos em que escrevera o “Desassossego” com o apoio de Bernardo Soares e vê Coelho Pacheco, seu ilustre desconhecido heterônimo e poeta de uma poesia só, disfarçado de policial. Nostálgico.
O diagnóstico: crise hepática. A solução: internação. A enfermeira: Catarina, nome-mundo – ao que, para outros e em outras ocasiões, seria apenas chamamento – para Pessoa, que ali só teria ela (ou não) como sua companheira para restar consigo. Deu-lhe um sonífero. Pessoa dormiu. Dormiu?
Com uma bandeja nas mãos: trazia o jantar. Soares relembra o amor frio de uma poesia de Pessoa, comparando à “frieza” da sopa servida no jantar. O poeta se justifica: “era Álvaro de Campos que estava em meu lugar”. Pessoa pergunta sobre o senhor Vasques, o chefe de Soares. “Um homem sem metafísica”, responde. Mencionam o filósofo panteísta António Mora, o louco lúcido (e que belíssima antítese!) que deu a Pessoa a confiança de volta na Natureza. “E quando os deuses voltarem, perderemos essa unicidade da alma, e nossa alma poderá ser novamente plural, como quer a natureza”, para terminar de relembrar de António Mora. “Não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada”.
Para Bernardo, a verdade está nos sentimentos – sim, porque eu só posso ter como verdade as minhas sensações. “Não há fatos. Há interpretações”. Meditava. “Em verdade, como escrevo? (…) dizer o que se sente exatamente como se sente — claramente, se é claro; obscuramente, se é obscuro; confusamente, se é confuso —; compreender que a gramática é um instrumento, e não uma lei”. E tenho dito.
Com (açúcar, com) afeto, Bernardo Soares ajeita o lençol sobre o peito de Pessoa e se despede.
Nada mais justo do que, depois de ser relembrado, aparecer. António Mora, o negligenciado, aparece no quarto do poeta paciente. Pessoa revisita sua história, num dos pontos altos da obra de Tabucchi, e revela: “(…) fui homem, mulher, velho, menina, fui a multidão dos grandes bulevares das capitais do Ocidente, fui o plácido Buda do Oriente, do qual invejamos a calma e a sabedoria, fui eu mesmo e fui os outros, todos os outros que podia ser, conheci honras e desonras, entusiasmos e desânimos, atravessei rios e montanhas inacessíveis, olhei rebanhos plácidos e recebi na cabeça o sol e a chuva, fui fêmea no cio, fui o gato que brinca pela rua, fui sol e lua, e tudo porque a vida não basta. (…) viver a minha vida foi viver mil vidas, estou cansado, minha vela consumiu-se, peço-lhe, me dê os meus óculos”.
E Pessoa suspirou. E eu suspirei.
O início, o fim e o meio
Assim como a vida não basta, dizer que a linguagem informa, comunica e representa não bastará. Jamais. A linguagem talvez seja tecido feito por fios-palavras (em liberdade, como queriam os modernistas?), que se disputam. Ela cria o perigo. Quem corre os riscos somos nós. “Puseram-me uma tampa”, para relembrar o prosaico. Tampa linguagem. Hermética toda vida. A literatura não tem ideia do que seja a linguagem, mas se sustenta através dela. É como um doente, manipulado pelas máquinas em cama de hospital, para continuar a viver. Mas isso lá é vida?
O poema é tão nada como qualquer outra coisa. Mas um nada que modifica a nossa existência – dá mais capacidade de ilusão. Não há nada que a gente escreva que não seja uma forma de espelho. “Cada um de nós era uma ilusão do outro”. Ou talvez dissesse, sobre isso, Guimarães. “…trabalhar um modelo subjetivo, pre-existente; enfim, ampliar o ilusório, mediante sucessivas novas capas de ilusão”. Tudo é uma outra coisa. As palavras não revelam. Elas encobrem.
Fica aqui a vontade não de encobrir, mas de ultrapassar o limite das folhas e das impressões. Desejo de citar Fausto, criado pelo próprio Fernando Pessoa, que fala de morte, conhecimento e amor – três pilares claudicantes da vida – doce mistério? Mistério….uma das poucas palavras que não carrega atribuição a outras para ser compreendida. Como, mais uma vez, diria Guimarães, “tudo, aliás, é a ponta de um mistério”. Tudo é só a ponta, a beiradinha…quase nada.
O resto é mão (não). Que denuncia, que abraça, que aponta e que escreve o que o corpo quer, a cabeça pensa e a voz dita, sussurrando. “E as mãos dos amigos nos conduzem…
E as mãos dos coveiros nos enterram!” Dor aguda da vida grave. “Façamos, vamos amar”.
Por fim, faz-se mister notar que este estudo, com o que traz de profundidade de sensações e de entrega, tenha sido finalizado e entregue no pretenso dia em que as pessoas de Fernando se foram. Morreu? Bateu as botas? Escondeu as bolinhas? Foi dessa pra melhor? Subiu no telhado? Não, se Fernando Pessoa tivesse subido no telhado, não teria morrido. Teria voado.